Ítalo Almeida
selo diamante

“Somos a única academia de crossfit que tem o selo. Só que eu queria que mais pessoas fossem atrás do Selo pra gente criar uma rede forte de atendimento, uma rede forte de valorização...”

Conheça o Ítalo Almeida

Na capital cearense, as academias esportivas começam a ganhar a feição do que o fortalezense chama de “fenômeno farmácia” – em cada esquina surge uma, da noite para o dia.  Se o contraponto da prática de exercícios ao uso de remédios sinaliza uma tendência positiva, na perspectiva dos empresários do ramo, sobretudo aqueles fora das grandes redes de academias low cost, faz-se necessário queimar muita gordura para se destacar num mercado superaquecido. É nesse cenário que encontramos o empresário Ítalo Almeida Alves, ganhador do Selo Sebrae de Qualidade Empresarial – categoria Diamante, sócio-proprietário da Carranca Crossfit, pai do Pedro Noah de apenas um ano e meio, apaixonado pelo que faz e uma inspiração para os empreendedores.

Ítalo, para saber mais sobre seu espírito empreendedor, como tudo começou?

Tudo começou comigo sendo estagiário de Educação Física, cheguei a coordenador geral de uma academia, depois virei diretor técnico até quando eu resolvi abrir o meu próprio  negócio. Em paralelo, eu sempre juntei dinheiro. Porque eu venho de uma família de comerciantes, eu sempre quis ter um comércio, um negócio. Não necessariamente uma academia. A uma certa altura, quando consegui poupar cem mil reais – que eu achava que era o dinheiro do mundo todinho e, quando eu fui ver, não dava pra nada – eu resolvi abrir uma academia. Era o que eu sabia fazer. Era a minha formação. Mas o dinheiro era pouco. Foi quando eu resolvi convidar dois alunos meus, que hoje são meus sócios, para encarar esse sonho. A gente abriu a primeira unidade, Carranca Orange, há sete anos, e uma segunda unidade, Carranca Blue, que agora conta com quase três anos. Já são quinze anos de mercado, lutando na área de academia, personal trainer, gestão e negócios.

São duas operações, então? 

Sim. A Carranca Crossfit Orange, que conta com cerca de sete anos e foi ganhadora do Selo Sebrae de Qualidade Empresarial categoria Diamante, e a Carranca Crossfit Blue, mais recente. A Blue não entrou na consultoria do Sebrae, mas ela acaba se beneficiando pois a gente tem um processo muito semelhante. A gente tenta manter um padrão. 

Você, como um bom empreendedor, gosta muito de estudar.

Isso. Graduei em Educação Física. E lá mesmo, na UECE (Universidade Estadual do Ceará) fiz uma Especialização em Treinamento Esportivo. Pela necessidade de abrir o negócio, fiz um MBA em Gestão Empresarial pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). Também iniciei um mestrado em Portugal na parte de Gestão Desportiva – mestrado sanduíche: Brasil-Portugal – e falta apenas defender a tese. Eu sempre tive vontade de ingressar na carreira acadêmica. Daí o mestrado e, na sequência, penso no doutorado. Mas, pelos negócios, priorizei o MBA.

Diante desse empenho na sua formação, como você vê a relação entre a teoria e a prática? 

As duas coisas se casam. Na realidade, se você for fazer um levantamento, as pessoas que abrem academias são ex-professores ou são professores atuantes. Você vai observar que muitas dessas academias acabam não tendo sucesso, não perdurando, porque lhes falta a gestão de negócios. A gente, enquanto professor formado na universidade, aprende a dar aula, entende sobre o corpo humano, a fisiologia… A  gente não estuda nada sobre como montar um negócio, sobre a gestão de um negócio. Então, eu pensei: “Não tenho como abrir uma academia sem fazer um MBA.” O MBA me abriu portas, me deu network, me fez rever os modelos de negócio, a situação mais rentável, a estudar a carga tributária que eu não conhecia… Tudo o que a gente viu no MBA está muito correlacionado com a prática e eu acredito que todo mundo da área do fitness deveria passar por essa experiência, que nos ensina de maneira prática e direta. Para quem quer abrir algo relacionado a negócios, vale muito a pena.

Onde nasce a sua veia empreendedora? De onde vem?

Meu pai é comerciante, minha mãe e minha tia são comerciantes, meu irmão é comerciante… Não tinha muito pra onde eu fugir. Tá na veia. Minha mãe teve uma rede de colchões, meu pai teve uma frota de táxis, meu irmão vende celular, tem loja de videogames. A família traz muito esse potencial. Então eu disse: “Eu vou ter um negócio. Se será um lavajato, um mercantil, eu não sei. Só sei que quero ter um negócio.” Assim fui em busca de desenvolver esse meu lado porque eu nunca quis ficar trabalhando para os outros o tempo todo. Se fosse para gerar um esforço muito grande enquanto empregado, eu preferia ir atrás de montar o meu negócio e gerar esse esforço nele.

O mercado fitness está muito aquecido. Como você faz para se destacar num mercado tão competitivo?

A primeira coisa: a gente precisa se posicionar enquanto mercado. O meu negócio hoje não é de pequeno porte, nem de grande porte. É uma academia de médio porte com foco no crossfit. O crossfit ainda é uma modalidade em alta, ainda é um modelo de treinamento que poucas pessoas desenvolvem, o que me dá condições de ter um diferencial. O que está chegando muito em Fortaleza, se espalhando pelo Brasil, são as grandes redes que a gente chama de “low cost”, onde você enche o espaço de aluno e ganha em escala. O meu negócio está mais para premium. Eu invisto muito mais em serviço do que em material. Assim, eu não brigo diretamente com esses concorrentes. Mas o mercado está muito aquecido e isso acaba provocando uma mexida pra gente estar sempre melhorando, se reinventando. Isso, para o mercado de forma geral, é muito importante. Antes, a gente tinha entre dois e três por cento da população praticando exercícios. Hoje, são entre seis e sete por cento. Eu acredito que se a gente chegar a dez, vinte, quarenta por cento, quanto mais gente se mexer melhor, porque a cadeia inteira ganha. A concorrência virá cada vez mais forte e, se você não se mexer também, você acaba sendo engolido porque a “brincadeira” com dinheiro é muito pesada.

Como se dá esse serviço premium? 

Antes de tudo, a gente investe em pessoas. Procuro encontrar professores, equipe de vendas, fisioterapeutas, nutricionistas, médicos parceiros com nível de formação mais elevado. Meus professores são formados, têm especialização. A gente foca muito no treinamento e no atendimento. Eu deixei um pouco mais a parte técnica pois percebi que as pessoas precisam ser ouvidas. Quem procura academia, procura pra paquerar, pra resolver seus problemas, procura uma pessoa para desabafar, fazer uma atividade terapêutica. Assim, o professor enquanto responsável, líder daquela tribo, precisa ser sensível para entender isso. O nosso foco hoje é muito mais no atendimento. Isso faz com que a gente consiga uma maior adesão para cobrar um valor diferente, o que me permite não precisar ganhar no volume, na escala.

Quando o Sebrae entrou na sua vida? 

Logo no começo da academia, há sete anos. Havia uns cursos para quem estava iniciando, tipo Empretec, ensinando o que é faturamento e outros processos, e eu cheguei a fazer. Eu também tenho um tio que trabalha no Sebrae-CE e que foi sempre um incentivador para que eu me aproximasse dos programas ofertados pelo Sebrae. Até que a gente chegou a essa última experiência com a consultoria para o Selo Sebrae de Qualidade Empresarial, que nos deu treinamento, fez um diagnóstico dos pontos que precisávamos melhorar; a gente criou um calendário de treinamento, nos voltamos para melhorar os processos… Então, eu comecei a entender o meu negócio quando ele começou a ter processos. Um negócio só cresce quando tem processos. Porque o processo é o início, o meio e o fim. É onde o cliente entra e onde o cliente sai. Para eu conseguir crescer preciso que esse processo esteja bem alinhado, bem definido e bem realizado.

“Existe uma Carranca (Crossfit) antes do Sebrae, sem processo, e existe uma Carranca (Crossfit) depois do Sebrae, com os processos.”

A quem você indicaria o Selo Sebrae hoje? Você o considera importante?

Eu acho o Selo uma boa alternativa. Eu fico feliz por essa iniciativa do Sebrae, mas gostaria de ver mais gente da área fitness envolvida com o Selo Sebrae. Porque é muito bom pra mim chegar e dizer: “Ah, eu sou a única academia de crossfit que tem o selo.” Só que eu queria que mais pessoas fossem atrás do Selo pra gente criar uma rede forte de atendimento, uma rede forte de valorização pra gente conseguir combater essas grandes redes. Existe uma Carranca antes do Sebrae, sem processo, e existe uma Carranca depois do Sebrae, com os processos. Uma coisa que a gente não gosta de fazer é um treinamento regular. Mas o Sebrae meio que te obriga, a cada dois meses, você realizar um treinamento com a sua equipe, com a parte de vendas, de atendimento, com a parte técnica, reuniões gerais. Com sete anos de mercado, a gente acaba meio que fazendo uma reunião por ano, a cada seis meses, e vai deixando o negócio meio solto. Então, voltar com treinamento, desenhar os processos e refazer a cultura institucional – toda empresa precisa ter uma cultura, foi transformador para o nosso negócio. Redefinimos a nossa missão, a nossa visão e os nossos valores. Hoje é legal ver que a gente consegue ter a nossa missão, a nossa visão está sendo atendida e a gente segue os nossos valores.

E quais são esses valores?

Os nossos valores são o trabalho em equipe, o senso de dono, o empreendedorismo e o ser visionário. A gente tem esses alicerces que nos fazem estar sempre pensando à frente. Todos os funcionários sabem que a gente quer uma terceira unidade, uma quarta unidade, uma quinta unidade… Que a nossa missão é transformar pessoas. Toda vez que eu tenho um problema interno, eu chego para meu colaborador e pergunto: “Você conseguiu transformar a vida daquela pessoa? Essa sua ação vai melhorar ou piorar a vida dela?” Quando um professor diz: “Ah, mas é uma cliente muito chata! É uma cliente muito exigente.” Pois o nosso papel é transformá-la numa cliente melhor, advirto. Nossa missão está pautando todos os nossos movimentos voltados para a transformação do cliente. O cliente chegou gordo, ele conseguiu emagrecer? Ele chegou buscando socialização, ele encontrou o ambiente? Nosso papel é buscar transformar pessoas.

Você falou em visão. Como você projeta o negócio ao longo dos próximos cinco anos? 

A gente tem uma ideia de abrir cinco unidades, Fortaleza/Ceará. Temos duas operando e uma terceira engatilhada. A pandemia deu uma segurada na gente, deu uma quebra no cronograma e a gente ainda está sofrendo um pouco os efeitos. A gente quer dentro de cinco a sete anos estar com a quinta ou sexta unidade já rodando.

“A gente precisa ter dentro da gente uma coisa chamada over delivery – entregar mais do que foi prometido.”

Como você define qualidade? 

Qualidade, pro meu negócio, é quando a gente consegue entregar mais do que o que a gente prometeu. É o que falo para minha equipe. A gente precisa ter dentro da gente uma coisa chamada over delivery – entregar mais do que foi prometido. Não custa nada a gente dar uma avaliação de brinde para o aluno. Não custa nada você dar uma camisa de brinde para o aluno. Não custa nada no final de uma avaliação dar os parabéns pelas conquistas dele. Ele vem aqui e espera pagar um plano, perder uns quilos. Mas a gente consegue entregar a ele um network, o relacionamento com outras tribos. Eu tenho aqui um grupo mais jovem, um grupo mais velho, um grupo que pratica beach tennis junto com a academia. Eu tenho um grupo de pessoas que velejam… Então a ideia é inserir o cliente nesse ecossistema, porque assim ele vai consumir mais dos meus produtos, minha lanchonete… Eu acabo ganhando o cliente em várias situações e não apenas naquele plano inicial. O professor que tiver uma boa relação vai fechar um trabalho de personal com o aluno. O céu é o limite, eu costumo dizer. Temos mil alunos ativos. São mil pessoas a quem a gente tenta entregar algo diferente. Não é fácil, trabalhar com pessoas é um desafio. Mas é isso que a gente faz, é disso que a gente gosta e é nisso que eu acredito. É o que me move.

Como você lida com a evasão, que tende a ser muito alta no segmento fitness? 

Sim, é muito alta. A gente tem hoje uma taxa de sessenta a setenta por cento de fidelização. De cada dez, sete ficam e três saem. E a gente tenta entender o porquê da saída desses três.  A causa foi financeira, tem gente que não consegue pagar nosso preço,  e está tudo certo. Tem gente que procura outro negócio porque não se achou dentro da tribo, e está tudo certo. Teve gente que saiu porque não gostou do atendimento, e aí está tudo errado. A gente aproveita pra ver o que não entregou no atendimento para melhorar. A nossa taxa entre sessenta e setenta por cento é uma taxa excelente de fidelização. As  academias “low cost”  tendem a ter de setenta a oitenta por cento de rotatividade. Lá eles não conseguem criar relacionamento, pois cobram muito barato. Eles investem em estrutura. Eles botam o dinheiro e o negócio roda. A gente precisa colocar o coração. E está cada vez mais difícil ter profissionais qualificados. Não tem tanta oferta de currículo bom. E isso impacta na abertura de uma terceira unidade. Hoje eu tenho uma gerente para as duas unidades. Ela não tem como abraçar uma terceira.

O que você diria para as academias no sentido de trazê-las para participarem do Selo Sebrae? 

É que a gente precisa se capacitar. A nossa área do fitness ainda é um pouco esquecida. Em que aspecto? Você não vê hoje em Fortaleza uma área voltada para o treinamento dos gestores, para o treinamento dos professores. Tudo que eu tenho que buscar com relação a academia eu preciso ir para São Paulo. Lá tem IHRSA Fitness Brasil, que é a maior feira nacional, onde a gente vê as tendências de mercado, os equipamentos, o que está acontecendo de atendimento, por que focar na terceira idade… Então eu preciso levar parte da equipe para receber esse treinamento em São Paulo. O Sebrae vem complementar num outro importante aspecto: o da gestão. Não adianta nada eu ir a São Paulo, ver as melhores modalidades e não saber aplicar. O Sebrae nos possibilita aplicar. O mérito de termos conseguido o Selo mais alto – Diamante, foi pelo empenho do time.  Hoje eu tenho, por exemplo, protocolado todo meu equipamento, coisa que eu não tinha antes. Hoje eu consigo ter um sistema de manutenção melhor, o que impacta no enxugamento de custo. Melhor manutenção, maior durabilidade.

Qual a sua rotina?

Meu dia a dia é do jeito que eu gosto. Eu não tenho hora pra entrar ou pra sair. Sou tão apaixonado pelo trabalho que todos os dias estou nas duas unidades. Começo cedo. Eu tenho uma paixão especial que é dar aula particular pra pessoas que precisam de mim. Pela minha formação, eu trabalho muito com lesão e atendo a muito idoso, muita gente com restrição. Eu noto que sou um diferencial na vida dessas pessoas. Além de gestor, ainda dou aula, trabalhando entre dez a doze horas por dia, sem nenhum problema. A academia abre às cinco e meia da manhã e fecha às dez da noite. Então a gente trabalha manhã, tarde e noite. Vou feliz. Acordo feliz. Se também quiser flexionar o horário, me ausentar um dia, eu faço. Trabalhe com o que gosta e terá mais prazer em trabalhar. Eu acredito no que faço, em transformar pessoas através do corpo, através da mentalidade, através da relação humana. Eu passei a acreditar e a ver que a gente tem esse poder enquanto prevenção. No fitness a gente não colhe hoje. Vai colher amanhã. As pessoas vão começar a entender que o que vai prevenir doenças chama-se exercício.

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